Metodologia
Como cada fala vira um veredito
O Tira-Teima transcreve o debate inteiro, separa o que é afirmação factual do que é retórica, e checa cada afirmação contra fontes públicas. Abaixo está o caminho completo, o significado de cada número do placar e — o mais importante — o que este método não consegue fazer.
O caminho de uma fala
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Transcrição do debate
O áudio do vídeo é transcrito por reconhecimento de fala, com marcação de tempo em cada trecho. É isso que permite, mais tarde, clicar numa fala e o vídeo pular para o segundo exato em que ela foi dita.
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Quem falou o quê
Cada trecho é atribuído a um candidato ou ao mediador. A pista principal são os próprios anúncios da bancada — “com a palavra o candidato Fulano”, “tempo de réplica” — que marcam a troca de turno.
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Separar afirmação de retórica
Só entram na checagem afirmações factuais verificáveis: números, dados de governo, fatos históricos, realizações alegadas e acusações concretas sobre adversários. Promessas e juízos de valor ficam de fora da nota — não porque não importam, mas porque não há como conferir se são verdadeiros. As promessas, por serem centrais no debate, vão para uma lista à parte.
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Checagem com busca
Cada afirmação é pesquisada em agências de checagem (Aos Fatos, Lupa, Comprova), bases oficiais (IBGE, INEP, DataSUS, Tesouro, secretarias estaduais) e imprensa de referência. Afirmações que não fecham na primeira busca passam por uma segunda rodada, que vai direto à base primária do tema.
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Contexto e resposta
Quando a fala trata de um episódio concreto, a checagem escreve um “Entenda o caso” com a história por trás dele. E, se o adversário respondeu no debate, essa resposta é transcrita e anexada à afirmação.
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Revisão humana
Nada é publicado no automático: os vereditos passam por conferência antes de entrar no ar, e podem ser corrigidos depois. Erro encontrado é erro corrigido — a página muda.
O que cada selo quer dizer
A regra que manda em tudo: nenhuma afirmação recebe veredito sem pelo menos uma fonte com link. Sem fonte verificável, o veredito é rebaixado — mesmo que a checagem tenha uma suspeita. Na dúvida entre dois selos, vale sempre o mais conservador.
Os selos são de duas naturezas, e misturá-los confunde. Os três primeiros julgam a fala e só existem com o dado em mãos. Os dois últimos descrevem o estado da apuração: não dizem nada sobre quem falou, e ficam fora da nota. No site eles aparecem em tracejado, sem preenchimento, para não serem lidos como veredito.
- Verdadeiro
Os dados encontrados confirmam a afirmação, admitindo arredondamento razoável.
- Falso
Os dados encontrados contradizem a afirmação com clareza.
- Verdadeiro, mas…
O dado foi encontrado e confirma a base da afirmação — mas a fala torceu alguma coisa: número exagerado ou minimizado, período trocado, comparação fora de contexto. Este selo não significa falta de informação; significa o contrário, e por isso mostra o tipo da distorção no lugar do rótulo genérico.
- Sem fonte
A afirmação é checável, mas a nossa apuração não localizou fonte confiável para confirmar ou refutar. A limitação é nossa, não de quem falou — e por isso essas falas ficam fora da nota.
- Não verificável
A fala é genérica demais para ter um número correspondente (“São Paulo caiu no ranking” — qual ranking?), ou as fontes encontradas divergem entre si. Também fica fora da nota.
O que mais aparece junto de uma fala
Um veredito sozinho pode enganar por falta de contexto. Quem chega numa fala vindo de um print não sabe o que aconteceu antes, nem o que foi respondido depois. Por isso o card de cada afirmação pode trazer mais dois blocos — e nenhum dos dois é checagem:
- Entenda o caso. Quando a fala se refere a um episódio concreto — um evento, uma pessoa citada, uma acusação sobre algo que aconteceu — a checagem escreve um resumo da história: o que houve, quando, quem são as pessoas envolvidas e o que veio depois. Inclui de propósito os fatos que o veredito da frase específica deixa de fora mas que mudam a compreensão do caso. Escrito de forma neutra, sem reargumentar o veredito. Afirmação puramente estatística não recebe esse texto: um número não tem história a contar.
- Promessas. Compromisso de ação futura não é checável — ninguém verifica o que ainda não aconteceu — e por isso fica fora da checagem e da nota. Mas é o que o eleitor mais ouve no debate, então as promessas são extraídas para uma lista própria, com autor, tema e o momento no vídeo. A lista abre pelo botão “Promessas”, ao lado de “Afirmações checadas”.
Cada promessa é lida de novo para separar duas coisas que só existem se tiverem sido ditas: o prazo (“até 2028”, “no primeiro ano”) e a entrega — o número ou a obra identificável que permite conferir depois se saiu do papel. Nada é deduzido: prazo de mandato não vira prazo de promessa, e “ampliar”, “fortalecer” ou “cuidar” não viram entrega, porque ninguém consegue dizer mais tarde se foram cumpridos. Quando não houve, o card diz “sem prazo dito” ou “sem entrega definida” — e essa ausência é informação sobre a promessa, não falha da leitura. No debate da Band, das 36 promessas registradas, 17 trazem entrega identificável e apenas uma foi dita com prazo. - Resposta no debate. Se o adversário contestou a afirmação no ar, a resposta é transcrita e anexada — inclusive quando quem fez a acusação recua ou muda a versão em seguida. É transcrição, não apuração: não recebe veredito e não entra na nota. Uma acusação que o outro lado desmontou no ar não pode aparecer sozinha no placar — mas quem responde mais alto também não ganha ponto por isso. Cada resposta traz o horário, que leva o vídeo direto ao momento.
Como a nota é calculada
A nota mede taxa de acerto, não volume: verdadeiras contam como acerto integral, as com distorção como meio acerto, falsas como zero. O resultado vai de 0 a 10.
nota = verdadeiras + (com distorção ÷ 2)base da nota × 10
Exemplo real: um candidato com 123 verdadeiras, 68 com distorção e 13 falsas tem base de 204 afirmações. A conta fica (123 + 34) ÷ 204 × 10 = 7,7.
A base da nota aparece sempre ao lado dela, e não é detalhe: 7,7 sobre 204 afirmações é um resultado muito mais sólido do que 7,7 sobre 10. Afirmações sem fonte e não verificáveis ficam fora da conta, para os dois lados — elas não contam nem a favor nem contra.
Afirmações por minuto não entra na nota. É outra medida: quanto o candidato apoia o discurso em dados verificáveis, em vez de retórica. Falar muito não melhora a nota — e falar pouco não protege dela.
O índice de distorção
Num debate real, distorcer é mais comum que mentir: “verdadeiro, mas…” costuma ser o veredito mais frequente, bem à frente de “falso”. Mentira direta é fácil de desmentir; a distorção sobrevive justamente porque parte de um dado verdadeiro. Na nota, ela vale meio acerto — o que é justo, mas achata a diferença entre quem erra pouco e quem torce o dado o tempo todo. Por isso ela também aparece separada, como medida própria: a fatia das afirmações verificadas que saíram torcidas, por candidato.
O índice não altera a nota publicada. Mudar o peso de um veredito depois de publicar o placar valeria menos do que a informação ganha: quem viu a nota ontem veria outra hoje, sem que nenhum fato tivesse mudado. A régua fica de pé; a distorção ganha um número ao lado dela.
Cada afirmação com distorção é classificada pelo tipo de distorção — o efeito sobre quem ouve, não a intenção de quem falou. Não afirmamos que alguém quis enganar:
- Número inflado: o número citado é maior que o real.
- Número minimizado: o número citado é menor que o real.
- Período trocado: o dado é real, mas de outro período ou gestão.
- Fora de contexto: fato verdadeiro sem a informação que muda o sentido.
- Comparação indevida: compara o que não é comparável, ou escolhe a base que favorece.
- Crédito indevido: atribui a si um feito de outro, ou culpa outro pelo próprio.
- Meia-verdade: a parte dita é verdadeira, mas omite o pedaço decisivo.
- Outro: distorção fora das categorias acima.
Os índices — e o que cada um não diz
Além da nota, a página traz recortes dos mesmos dados. Nenhum deles entra na nota: a nota mede uma coisa só, o acerto factual, e misturar medidas de naturezas diferentes num número só o tornaria impossível de auditar. Cada índice tem a base à vista, e recorte com menos de 8 afirmações verificadas não recebe nota.
- Em que gastou o debate. Divide tudo o que foi registrado de um candidato em três: proposta (compromisso de futuro), falas sobre o adversário (que citam o oponente pelo nome ou pelo partido) e o resto — balanço e dados. Não chamamos de “ataque”: citar o adversário pode ser acusação, comparação, defesa ou resposta, e a diferença entre elas é intenção. O denominador é o que foi registrado, não tudo o que foi dito — a extração de promessas é exigente de propósito, então a fatia de proposta é um piso.
- Promessa que dá para cobrar. Contar promessa premia quem fala muito. O que interessa é quantas trazem entrega identificável — obra, número ou meta que permita conferir depois se saiu do papel.
- Onde o acerto muda. A mesma conta da nota, aplicada a recortes: falando do adversário × sobre o resto, e citando um número × sem número na frase. Serve para ver que a taxa de acerto não é uniforme dentro do próprio discurso.
- Ao longo da noite. O debate dividido em três fatias de tempo iguais, com a nota de cada uma. Mostra se a fala se sustenta melhor no começo ou na reta final.
- Perguntou e respondeu? As perguntas diretas de um candidato ao outro, com o que veio em seguida. É o único bloco do site sem fonte externa — nenhum documento atesta que alguém desviou de uma pergunta, a leitura é nossa. Por isso o desenho é o inverso dos outros: o número é secundário e a prova vem inteira, pergunta e resposta como foram ditas, com os dois horários, para o leitor conferir e discordar. Só entram perguntas que pedem informação (retórica não conta) e apenas o caso evidente: na dúvida entre enfrentou e desviou, a troca não é registrada. Onde a base é pequena, não publicamos percentual.
- Para que lado a distorção puxa. Cada distorção é classificada pelo efeito: melhora a imagem de quem falou, piora a do adversário, ou não favorece ninguém. Isto não é um placar de intenção, e nunca será. Intenção não é observável — erro por descuido, por assessoria mal informada e erro deliberado produzem o mesmo registro. Além disso, dizer que alguém “afirmou algo falso” é relatar um fato; dizer que “mentiu” é atribuir dolo, e isso não se apura com transcrição. Na dúvida entre um lado e “não favorece ninguém”, a classificação fica com o último.
Nota por tema, busca e leitura dos números
- Nota por tema. Cada afirmação é classificada num assunto — segurança, saúde, educação, economia, infraestrutura, meio ambiente, contas públicas, social — e a taxa de acerto é recalculada dentro de cada um. Serve para ver onde o candidato pisa firme e onde escorrega. Abaixo de 8 afirmações verificadas no tema não publicamos nota: com base pequena, dois erros derrubam o número e ele passa a enganar mais do que informa.
- Busca por termo. A busca varre o texto das falas, das explicações, das respostas e das promessas, ignorando acento e maiúscula. O resultado vem com o horário de cada trecho, que leva o vídeo ao momento exato — dá para ouvir a frase inteira, no tom em que foi dita, em vez de confiar só na transcrição.
- Leitura dos números. Um texto curto que descreve o debate a partir apenas das estatísticas já publicadas nesta página — quantas afirmações cada um fez, quantas se sustentaram, quem prometeu mais, quem contestou o outro. Ele não assiste ao debate nem consulta nada por fora, e é proibido de dizer quem venceu, de atribuir intenção e de qualificar os candidatos. Se os números forem poucos, a própria leitura diz que são poucos.
Qualquer pessoa pode mandar a fonte que faltou
Nas falas marcadas como Sem fonte existe um botão para enviar o link do dado. Vale para todo mundo — eleitor, jornalista, pesquisador e também a assessoria do próprio candidato. É a forma mais rápida de corrigir uma falha da nossa apuração.
Mas aceitar link de estranho na internet é, obviamente, um convite à fraude: bastaria alguém publicar uma página dizendo o que quer e mandar o endereço. Por isso o link enviado entra como pista de onde procurar, nunca como prova. Estas são as regras:
- Nada enviado é publicado. O link não aparece no site. Ele dispara uma nova checagem daquela fala, e o que vai ao ar é o resultado dessa checagem — com as fontes que nós confirmamos.
- Domínio que qualquer um pode criar não sustenta veredito. Um veredito “verdadeiro” ou “falso” só se apoia em site oficial (gov.br, leg.br, jus.br, edu.br), agência de checagem ou imprensa de referência. Blog, site pessoal ou domínio que imita veículo conhecido servem, no máximo, para indicar onde está o dado original. Essa regra é aplicada pelo código, não pelo julgamento de quem revisa.
- Encurtadores são recusados — bit.ly e similares escondem o destino real. Cole o endereço completo da página.
- Conferência humana antes de tudo. Toda sugestão passa por moderação, e a checagem é instruída a abrir o link e verificar se o conteúdo realmente sustenta o dado — nunca aceitar pelo título.
- Fonte de campanha é identificada como tal. Quem envia declara em que condição está enviando. Link vindo de assessoria ou do próprio governo avaliado pode ser usado quando o dado for rastreável, mas isso fica registrado na explicação da checagem.
Na prática: se o dado existir mesmo, mandar o link acelera a correção. Se não existir, nenhum link faz a checagem dizer que existe.
Os limites deste método
Um placar de checagem que se apresenta como infalível está mentindo. Estes são os pontos fracos conhecidos:
- A atribuição de fala pode errar. Em debates com corte rápido e sobreposição de vozes, uma frase pode ser creditada ao candidato errado — o que desloca uma afirmação de um placar para o outro. Já encontramos casos assim e os corrigimos quando aparecem.
- “Sem fonte” não quer dizer “mentira”. Quer dizer que não achamos o dado. Muitos números de governo existem em relatórios que não são indexados, e a ausência de fonte é falha de apuração — nunca prova de erro.
- Contar afirmações não mede a importância delas. Uma mentira grave sobre saúde pública pesa o mesmo, no placar, que um número de quilômetros de asfalto ligeiramente inflado. A nota é um resumo, não um substituto para ler as checagens uma a uma.
- Dado oficial também tem dono. Quando a única fonte disponível é o próprio governo avaliado, a checagem registra isso explicitamente na explicação. Trate esses casos com a desconfiança devida.
- Checagem tem data. Cada afirmação é avaliada com os dados disponíveis até o dia do debate. Número que mudou depois não torna a fala falsa.
- A defesa contra fonte forjada não é perfeita. As regras acima barram fraude amadora — página criada para a ocasião, domínio que imita veículo, encurtador. Não impedem que um veículo de referência publique um dado errado, nem que um documento oficial esteja equivocado. Por isso as fontes ficam sempre à vista: para você conferir o caminho, não para confiar nele.
Achou um erro?
Erro de checagem é erro público: se um veredito estiver equivocado ou faltando contexto, ele é corrigido e a página muda. Toda checagem traz os links das fontes usadas justamente para que qualquer pessoa possa conferir o caminho — e discordar dele.
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